Trechos do livro "Jocelino Soares Vida Obra e Crítica"
jornalista Mário Soler Editora RioPretense- 1999.
Teimosia
de caboclo
Filho mais velho da união
do caboclo Olegário Soares com a neta de italianos
Lourdes de Jesus, Jocelino Soares nasceu na fazenda São
Miguel, em Neves Paulista, no dia 27 de dezembro de 1955.
Viveu sem cidadania até atingir a idade escolar,
aos sete anos, quando foi finalmente registrado. O pai
lembrava de cor a data, mas confundiu o ano. Jocelino
foi registrado como se tivesse nascido em 1956.
Viveu com a família em Neves
Paulista por quatro anos.
Mudaram-se para a fazenda São
José, dos Haddad, nas vizinhanças da antiga
Borboleta, rebatizada Bady Bassitt. A fazenda tem sede
até hoje à beira da BR-153 e na época
abrangia áreas hoje urbanas - onde estão
o Harmonia Tênis Clube, a escola Coopen, o Centro
Recreativo do Grupo Verdi, indo até ali por perto
do Posto Martinelli e afundando rumo à zona rural.
O casal Olegário e Lourdes teve mais seis filhos
_ dois homens e quatro mulheres, que o primogênito
Jocelino ajudou a sustentar trabalhando na roça.
Jocelino Soares era Celino na roça.
Desde criança, se apaixonou por desenhos e letras.
Cresceu alternando enxada de dia e lápis nas horas
de folga. Entrou aos 22 anos para a Polícia Militar,
disposto a garantir o sustento da família _ já
era casado em primeiras núpcias e pai - e dedicou-se
à arte.
Se aposentou da PM sem ter disparado
um só tiro em serviço. Foi sempre soldado
raso, orientador de trânsito e professor de projetos
comunitários da Polícia Militar de Rio Preto,
como o "Projeto Vida", de educação
para o trânsito, e o Proerd - Programa Educacional
de Resistência às Drogas.
Descoberto pela mídia local
e nacional, Jocelino virou o guarda de trânsito
que pintava quadros futuristas, e por muito tempo, carregou
este rótulo até ser reconhecido como um
artista único, maior.
Jocelino Soares viveu uma relação
de amor com a terra e de desesperança com a roça.
Até hoje, põe nas telas (velhas) paisagens
e personagens rurais, como que para eternizar seus tipos
e sofrimentos. Este é o lado lúdico, ideológico.
A desesperança o perseguiu na infância paupérrima
e na adolescência povoada de ambições,
que o remetiam sempre ao cenário salvador da cidade.
Estudar, progredir, fazer carreira, tudo dependia de deixar
o campo. Aos 12 anos, tocou a primeira roça para
o próprio sustento, um eito de 1.200 pés
de café e mais um alqueire de terra para cultura
de subsistência. "Eu fiquei feliz, mas assustado.
Ia sozinho para o cafezal distante, morria de medo e cantava
para espantar os maus pensamentos", recorda. A irmã
de dez anos ajudava na lida depois de ir à escola.
Tinha horror às velhas porteiras, testemunhas de
tantas idas e vindas. Os moradores mais velhos espalhavam
pânico entre a molecada das fazendas, atestando
que as porteiras eram assombradas, abriam sozinhas pela
ação dos fantasmas.
Disposto a conquistar um lugar
na cidade _ "trabalhar na roça, sem perspectivas,
era uma rotina estafante", o bóia-fria Jocelino
se inscreveu num concurso da Telesp em Rio Preto. Passou
na primeira fase e foi chamado pela psicóloga da
empresa para uma entrevista. Entrou na melhor roupa e
encarou a conversa difícil:
- O que você faz?, perguntou
a mulher.
- Trabalho na roça...
- Ah, sim!, e do que você
mais gosta fora da roça?
- Gosto de pintar nas horas vagas...
Acabou reprovado. Depois a mulher
justificou:
- O serviço aqui é
pesado, é preciso subir em poste...
(Não era serviço
para artista).
A imagem de "artista"
renderia, mais adiante, generosas ironias por parte de
alguns colegas de corporação, quando Jocelino
já era policial. "Eu era visto como um policial
diferente, o peeme-pintor. Na corporação,
alguns me tratavam com deboche: ah, não liga não,
ele é um artista!, mas a maioria tinha admiração
pelo meu trabalho".
Nas ruas, a fama chegaria aos motoristas
infratores. Eram comuns apelos assim: "ô, seo
guarda, o senhor é um artista, não me multa
não!"
E ele devolvia a ironia: "fique
tranqüilo, quando pinto não multo."
A veia artística, às
vezes, manifestava-se nas horas mais impróprias.
Numa tarde modorrenta, Jocelino fiscalizava o trânsito
num cruzamento no centro de Rio Preto. O tempo custava
a passar e deu vontade de pintar. Uma figura futurista
foi concebida ali mesmo, no verso do talão de multas.
A relíquia é guardada até hoje junto
a um autógrafo do mestre José Antonio da
Silva, desenhado na segunda vida de um formulário
de multa.
O
caipira trêmulo
Reprovado no concurso de postes
da Telesp, Jocelino decidiu entrar para a Polícia
Militar. Em 1976, fez o exame pela primeira vez. Foi um
fiasco. "Ia tudo bem até que me mandaram assinar
o nome. Eu não conseguia assinar nada em público,
tive uma tremedeira _ sempre tinha - e fui reprovado",
conta. Em agosto do mesmo ano, já mais desinibido,
fez o concurso pela segunda vez e passou. Virou policial,
mas continuou morando no sítio. Logo, foi transferido
para São Paulo; um choque. Lá, trabalhou
no bairro Santana, Zona Norte da Capital, na viatura que
fazia a ronda ostensiva _ "uma barra pesadíssima",
recorda. Retornou para Rio Preto em outubro de 78 e foi
escalado para policiamento de trânsito. Meses depois,
viu de perto a maior rebelião com reféns
da história do Cadeião do Eldorado. Precisou
subir na torre armado de fuzil, ficando na mira dos presos,
que também tinham armas. Foram momentos de tensão
e angústia. "No final, os presos se renderam,
os oficiais foram condecorados por bravura, mas os soldados
rasos não".
A aposentadoria chega e Jocelino
encerra a carreira sem disparar um só tiro em serviço.
E bem que teve oportunidade, especialmente no dia em que
encontrou um homem que se dizia o próprio capeta.
Jocelino lembra: "ele parecia feito de elástico,
dava saltos mortais ao contrário e ameaçava
a todos com uma foice. O homem veio na minha direção,
eu tinha a arma na mão, mas me escondi atrás
de um poste. Hoje, acho que fiz um bom negócio.
Poucos minutos depois conseguimos dominá-lo".
A
raiz mais funda
Ao
lado de uma das casas da antiga colônia da Fazenda
São José, em Rio Preto, há um pé
de cedro de uns dez metros de altura. Jocelino se emocionou
ao rever a planta numa tarde de outubro de 1999. Vinte
e seis anos antes, inspirado na música Pé
de Cedro (*), interpretada na época por Tibagi
e Miltinho, Jocelino encontrou no mato um pequeno arbusto.
Recolheu-o com cuidado para replantar ao lado da casa
dos pais. "Quis imitar a música e prometi
a mim mesmo que voltaria para lá vinte anos depois.
Já se passaram 26 e ainda estou aqui..."
A
primeira exposição
Uma tarde, exausto do trabalho,
o bóia-fria Celino chegou em casa na fazenda São
José, da família Haddad. A mãe Lourdes
correu a dar a boa nova.
- Filho, vem ver como a nossa despensa
ficou bonita!
Celino encarou a parede recém-branquinha,
cheirando a cal fresca, e não pôde crer no
que via. Nas paredes, agora alvas, até momentos
atrás, estava exposto um pequeno tesouro pessoal,
formado por dezenas de desenhos, obras de arte da primeiríssima
fase do autor.
Eram desenhos rústicos,
em pequenos pedaços de papel que o pai trazia da
cidade, feitos com lápis preto de ponta rombuda,
muitas vezes com lápis de pedreiro. Os desenhos
tinham sido cuidadosamente grudados às paredes,
nas quatro pontinhas do retângulo de papel, com
uma cola caseira feita de farinha de trigo e água.
Jocelino Soares deduziu em segundos o destino cruel de
sua primeira exposição de arte. Outras exposições,
aqui e no exterior, viriam para compensar essa primeira
perda.
Daquela época, salvou-se
uma única obra colorida, a guache, de 1973, (ao
lado) sem nome. Mostra o rosto de uma mulher - "provavelmente
uma deusa, não sei bem, só sei que copiei
o modelo de algum lugar", diz o artista. A obra sobreviveu
à reforma da despensa porque foi feita em cartolina
grossa e era pesada demais para ser fixada à parede
com goma de farinha.
- Ô, nego,
continua assim que é aí que tá a
coisa!
O jovem artista da roça
tomou ao pé da letra as palavras da jornalista
e diretora da Casa de Cultura de Rio Preto, Dinorath do
Valle, ditas em 1974, durante um curso na Escola de Arte
Juvenil.
- Descobri que os desenhos que
fazia eram uma forma de arte e não parei mais,
recorda Jocelino Soares.
E a produção foi
fértil. Em 26 anos de carreira, ele estima que
já pintou cerca de mil obras, entre gravuras e
quadros.
O
primeiro prêmio
A primeira premiação
viria em 1976, o terceiro lugar no 17o Salão de
Arte Juvenil da Casa da Cultura de Rio Preto, ano que
marcou também os primeiros desenhos com bico-de-pena.
Foi ainda o ano em que Jocelino viu de perto pela primeira
vez um quadro surrealista. "Eram telas de Roni Brandão
e Mário Campelo, que me deixaram encantado",
lembra. Na véspera dessa descoberta, a ex-patroa
da família Soares, a empresária Benny Haddad,
inaugurara uma galeria de arte. Jocelino, que nunca pronuncia
o nome da empresária, achou que seria convidado
para a inauguração. Não foi. No dia
seguinte, ao passar em frente ao prédio, entrou
para dar de cara com o surrealismo que tanto perseguia.
Jocelino perseguia também
imagens que fossem únicas, a marca registrada de
sua obra. As imagens instigantes começaram a surgir
de um dilema de fim de tarde. "Eram umas quatro horas
de um dia de sol quente. Eu trabalhava no cafezal cheio
de capim alto e trapoeraba(*). Comecei a imaginar o que
eu deveria fazer para mudar meus desenhos e sair daquele
mundo. Vieram as figuras que coloquei no papel ao chegar
em casa". Nasciam então as figuras espaciais,
mulheres com grandes olhos esbugalhados.
"Se eu fizesse uma mulher
comum, diz Jocelino, ela seria comum. Então, como
chamar a atenção e torná-la especial?
Li certa vez que os olhos são o espelho da alma.
refletindo sobre isso, aumentei os olhos de minhas mulheres
e criei uma marca daquela fase, como são os girassóis
a marca da minha fase atual. Qualquer pessoa que olhar
uma mulher `zoiúda' vai dizer: ali está
uma figura do Jocelino. Com os girassóis de hoje
está acontecendo o mesmo. Eu pesquisei e descobri
que só Vang Gogh pintou girassóis; eram
onze. Todos os quadros do mestre são naturezas
mortas. Eu não conheço outro artista que
pinte grandes campos de girassóis. Meu girassol
é compreendido por qualquer pessoa. Uma criança
olha e diz: é um girassol. Eu quero que digam um
dia: é um girassol do Jocelino".
Jocelino considera seus bicos-de-penas
de 1977 os mais expressivos. "São figuras
minhas, que criei, não busquei em lugar algum".
Enquanto produzia seus enigmáticos seres e paisagens
em preto e branco, Jocelino fazia incursões esporádicas
pela cor, mas sem sucesso. Chegou a recorrer a uma técnica
de pintura de assopro. Despejava a tinta sobre a superfície
do papel e com um canudo assoprava até formar diferentes
figuras. "Mas aquele trabalho não tinha nenhuma
marca pessoal minha. Fiz alguns cartões de Natal
e abandonei a técnica".
Um dia, Jocelino encontrou o professor
Guillermo De La Cruz Coronado, um grande incentivador
e crítico de sua arte. O professor provocou:
- Jocelino, você precisa
usar as cores.
E o artista passou a fazer e em
seguida colorir os desenhos. O professor reprovou e insistiu
na provocação.
Foi uma fase que Jocelino define
como angustiante, um artista em busca de um estilo. Em
81, em plena busca, iniciou a bico-de-pena o auto-retrato,
"como faz a maioria dos pintores". Chegou a
desenhar os traços fisionômicos, mas parou,
convencido de que era narcisismo.
A obra de Jocelino ganharia ainda
um lugar (permanente?) nas paredes da Câmara Municipal
de Rio Preto. No final de 1984, o então presidente
da Câmara, Laerte Teixeira da Costa, pediu ajuda
à jornalista Dinorath do Valle para selecionar
artistas plásticos `promissores', que ganhariam
espaços na parede dos fundos da platéia.
Jocelino estava entre os escolhidos e deixou esculpida
sua marca registrada - as mulheres sofridas, de grandes
olhos. Os painéis foram inaugurados no dia 18 de
janeiro de 1985 e as obras ganharam destaque na chamada
"Grande Imprensa".
As
primeiras cores
Na fase "angustiante",
que duraria até 87, Jocelino não interrompeu
a busca. O escritor, jornalista e crítico de arte,
Roberto do Valle, captou bem esse momento do artista,
num texto publicado no "Diário da Região",
na série "A arte rio-pretense":
"Jocelino é constante
e tenaz em seus bicos-de-pena sensíveis. As belas
produções de 1981 mantiveram o tema geral,
surrealista (...) esmerada elaboração no
tratamento gráfico das figuras, textura convincente,
efeito misterioso, sombrio, dramático (...) troncos
de mulher com acrescentamentos de símbolos juvenis
evidentes, formas espaciais, escadarias, castelos, pontezinhas
ou eventualmente figuras mais intrigantes (...) num vocabulário
de formas mórbidas, idéia de degenerescência.
Nas produções surreais, também é
estreito o limite entre uma expressão de profundidade
e a mera esquisitice, há sempre um risco de cair
nisso. Jocelino não caiu; imagino que imergirá
em novas propostas".
Roberto do Valle, jornalista, "Diário
da Região", 23.10.83, como que antevendo a
incursão de Jocelino pela cor.
"Eu queria sair do fundo do
poço, via a luz lá fora mas não conseguia
alcançá-la. Na busca pelo domínio
da cor, fui aos pintores acadêmicos pedir dicas
para usar bem o óleo. Ninguém me ajudava".
Em 3 de janeiro de 1988, Jocelino
procurou o pintor rio-pretense Alcides Rozani (falecido
em novembro de 97). Rozani recebeu a idéia com
prazer e permitiu que Jocelino o visse pintar, misturar
as tintas, levá-las à tela. "Ele trabalhava
e eu ficava atrás, observando cada detalhe".
A aula começou a dar resultados.
A conselho de Rozani, Jocelino adota a técnica
do pontilhismo e o primeiro óleo sobre tela surge
em 1988: uma mulher leva uma cabaça de água
no alto da cabeça, outra escora-se no cabo da enxada,
ao fundo a colônia _ reminiscências. O pontilhismo
aparece nas obras de Jocelino até o ano de 1990.
"Aí começa a
fase da pincelada. Retratei uma família rural sentada
à mesa, ouvindo rádio enquanto espera a
janta. Gostei de fazer. Logo depois, pintei um retrato
de família. E aí a cor não me abandonou
mais", lembra o artista. Nos dois quadros, mulheres
tomam o lugar da figura paterna; Jocelino não pinta
homens, como veremos mais adiante.
Houve em seguida uma fase "vermelha",
de 93 a 95. Foram cerca de 30 quadros onde a cor vermelha
dominava paisagens e rostos. Um dos principais trabalhos
retrata uma mulher chorando junto a outra, prostrada,
as duas separadas de um outro grupo feminino por um grande
fosso. O vermelho se foi com a aurora dos primeiros girassóis.
Jocelino
tipo exportação
Se Jocelino se debatia num dilema
interior, em busca de novos rumos para sua arte, a primeira
parte de sua obra estava consolidada e recebia comentários
favoráveis da crítica (ver adiante o capítulo
"A crítica").
Em 1984, inicia uma série
"preparação para a morte". Morte,
velório, cemitério, enterro, noite. "A
morte é a única certeza que temos e a coisa
que mais assusta as pessoas. A morte é real, presente,
atual", dizia o artista ao "Diário da
Região", em 23 de outubro de 1983.
Em março de 1984, veio uma
excelente notícia. Conhecedor da obra de Jocelino,
o norte-americano radicado em Rio Preto, Thomas Goslee,
indicou o artista a Renê Shapshak, diretor cultural
do "International Maltese Museum of Fine Arts",
de Nova Iorque. Depois de ver alguns trabalhos, Shapshak
mandou a Rio Preto a jornalista Ruth Gershon. Durante
dez dias ela analisou as obras do artista rio-pretense
e selecionou um dos quadros para o acervo permanente do
Museu.
Em 7 de março de 1984, Ruth
Gershon falou ao jornalista Nivaldo Carrazone, de "A
Notícia", sobre suas impressões a respeito
da obra de Jocelino Soares:
"Jocelino nos leva a ver uma
forma extra-terrestre, que está acima dos nossos
sentidos, sem sair contudo de nossa razão científica.
A pessoa que está observando a obra de Jocelino
chega a perceber o movimento de uma alma em crise. Sua
obra mostra o progresso científico da humanidade
transportando o homem a um suicídio global. O trabalho
de Jocelino é um choro constante suplicando a sanidade
do homem. Jocelino é um artista incomparável.
Sua estética reflete a arte acima da média
e sua expressão mostra a vida diante de um mundo
nuclear em destruição, levando-nos a pensar
que é hora de mudar e entrar numa vida com esperança".
Ruth Gershon, jornalista e pesquisadora
de arte, "A Notícia", pag. 2, 8 de março
de 1984.
Ao conhecer em "chef"
de cozinha italiano, Jocelino abriu as portas para mostrar
seus trabalhos na Europa. Guido Spósito ajudou
a organizar uma mostra do artista na cidade de Fondi,
em 1994. Foram expostas 20 telas, 14 foram vendidas durante
a exposição e o restante depois da volta
do artista ao Brasil. Em 1996, expôs 20 quadros
em Jacksonville, na Flórida, e dois anos mais tarde
voltou à mesma cidade italiana de Fondi para uma
segunda exposição.
A mostra na Itália foi um
marco na obra de Jocelino. Antes de partir, ainda em 93,
ele pintou o primeiro quadro da série "Girassóis".
"Eu não sabia como era uma plantação
de girassóis. Só fui visitar uma na Itália,
depois que tinha pintado o quadro". Na volta ao Brasil,
nostálgico, começou a abrir janelas em seus
quadros, incluindo no detalhe mais iluminado as paisagens
inspiradas na Itália. Há quadros de Jocelino
com até quatro janelas. São quadros dentro
de um mesmo quadro.
O
prazer de pintar
A busca de Jocelino está
longe de terminar. Nos últimos anos, o artista
vem retratando girassóis e paisagens rurais com
plantações de laranja, café e arroz;
casas e grandes árvores. Essa recorrência
temática resulta da origem rural, um campo ideal
que o artista persegue com tenacidade, como se quisesse
homenagear o pai que nunca pôde se beneficiar da
reforma agrária. Fez em 98 uma série sobre
o movimento dos sem-terra e a devastação
de Roraima a fogo e motosserra (ver pag66).
No processo de busca, Jocelino
se fixou nas cores com que o sol tinge a natureza. Basta
comparar os primeiros quadros da série girassóis
com as paisagens rurais recém-pintadas para se
ter uma idéia de como a luz está cada vez
mais presente. "Busco ainda mais luminosidade, até
onde o amarelo permitir".
A luz, ele reconhece, depende
também da inspiração. "Se o
dia está radiante eu me digo: esta luz que eu estou
pondo aqui é a do sol nascente; se o dia está
triste eu imagino que é um pôr-do-sol".
Ele lembra que, nas pinturas em preto e branco, o desafio
era tirar a luz da tela branca, para que o preto dominasse
a cena. "Ao iniciar nas cores, eu sofri para iluminar
minhas telas. Hoje, eu quero que a cor seja cada vez mais
real". E cita Picasso: "O mau pintor faz do
sol uma mancha amarela; o bom pintor faz da mancha amarela
um sol".
Às portas da aposentadoria,
com tempo de sobra para a arte, Jocelino já decidiu:
esta é a fase de pintar com calma e prazer, "como
se eu fosse viver 300 anos". É também
a fase da auto-crítica.
"Meu estilo? Não sei.
As paisagens não são acadêmicas porque
fogem totalmente do academicismo e não são
primitivas porque têm muitas nuances de cores, há
perspectiva, profundidade. Então, acho que não
me encaixo em nenhuma corrente. Parodiando Millôr
Fernandes, enfim, um artista sem estilo".
Todas
as figuras criadas por Jocelino são femininas.
Pintá-las é uma maneira de homenagear a
figura da mulher sofrida, como a roceira, de tripla jornada
de trabalho.
"É
impressionante como sofre a mulher roceira. Ela acorda
antes das seis da manhã e começa a lida;
às nove, já lavou roupa e fez almoço.
Aí leva o comida pro marido, fica até as
quatro ajudando no campo, volta pra dar banho nas crianças,
fazer a janta, alimentar os animais. Depois, serve a janta
e fica pronta para servir também ao marido, emprenhando
uma vez por ano. Com 30 anos, a mulher está acabada,
é uma matriz decadente. Minhas personagens são
essas mulheres, caboclas sofridas".
Entre
a primeira exposiçãozinha particular e a
aprovação da crítica, Jocelino Soares
percorreu uma longa estrada, sinuosa e difícil
como as que ele cruzava a pé e de bicicleta na
infância e na juventude. Quando pôs na cabeça
que deveria deixar a roça, não poupou meios.
Um
rádio de pilha que o pai comprou de segunda mão
na Matinha, em 65, era, até então, a única
janela para o mundo. Nele, o adolescente Jocelino ouvia
as modas de viola na faixa nobre das oito da noite e acabou
seduzido duplamente. Primeiro, pela propaganda do Instituto
Universal Brasileiro. As promessas do locutor Edgard de
Souza, da Rádio Nacional - São Paulo, hoje
Rádio Globo, convenceram Jocelino a fazer um curso
de pintura por correspondência. Ele pagou para ver,
mas desistiu na metade: "aquilo não tinha
como dar certo". A segunda sedução
foi uma paixão adolescente à distância:
"me apaixonei pela voz da Norma Lopes", a segunda
locutora do programa. Jocelino sabe de cor até
hoje as atrações da faixa nobre da Rádio
Nacional: às segundas-feiras, Zé Fortuna
e Pitangueira; às terças, Vieira e Vieirinha;
às quartas, Liu e Léu; às quintas,
Zico e Zeca; às sextas, Tião Carreiro e
Pardinho.
O
rádio dava menos do que o jovem roceiro precisava.
Jocelino descobriu a Biblioteca Municipal de Rio Preto,
na esquina das ruas Voluntários de São Paulo
e Rubião Junior. Percorria de bicicleta os dezesseis
quilômetros, ida e volta, da fazenda às margens
da BR-153, saída para Bady Bassitt, até
a Biblioteca e trazia sempre um livro para ler à
luz da lamparina. Entre os autores preferidos, José
Lins do Rego _ "eu me via um menino de engenho"
_ e José Mauro de Vasconcelos _ "eu tinha
com um pé de pinha a mesma relação
que o menino do livro tinha com o pé de laranja
lima; descobri que a minha experiência de subir
em árvores e estrepar o pé já seduzira
também um grande escritor".
O
primeiro concurso
Com o tempo, Jocelino foi descobrindo um outro mundo além
das fileiras de café. Em 74, passou a freqüentar
a Casa da Cultura e se inscreveu no Salão de Arte
Juvenil. Apanhou um pedaço de duratex, improvisou
uma tela e pintou um Cristo a óleo (ao lado, acima).
"Quis fazer um cristo acadêmico, saiu estilizado",
lembra. A obra não mereceu a atenção
dos jurados.
Em
1975, o artista usou modelos de fotonovelas das revistas
Capricho e Grande Hotel para pintar rostos femininos.
Nesse ano, ainda, expôs desenhos no Ibilce (Unesp)
de Rio Preto, não sem antes viver um apuro. "Os
organizadores me pediram um currículo, mas eu não
sabia o que era isso. Aí, no dia da mostra, distribuíram
um panfleto sobre os trabalhos, onde eu era classificado
como surrealista ingênuo. E eu me perguntava, inconformado:
mas eu, ingênuo?"
A
CRÍTICA
A
alma das produções de Jocelino Soares foi
perscrutada ao longo dos anos por uma dezena de críticos
de arte.
Registramos
aqui três momentos da análise - por assim
dizer, técnica _ das diferentes fases da pintura
do artista rio-pretense.
Neste
capítulo, o leitor encontrará textos do
curador e crítico de Arte Carlos von Schmidt (1993),
sobre a mais nova fase, a "colorida";
do
professor Guillermo De La Cruz Coronado (1985) e do professor
Romildo Sant'Anna sobre as fases em preto e branco. Acreditamos,
assim, contemplar os momentos mais marcantes da obra do
artista rio-pretense.
São
olhares que ajudam a decifrar o universo de Jocelino.
A HORA E A VEZ DE JOCELINO
"O
fato de Jocelino Soares ser de São José
do Rio Preto não significa necessariamente que
seguiu as pegadas de José Antonio da Silva, o papa
dos pintores primitivos e ingênuos do Brasil.
Não!
A pintura de um, nada tem a ver com a do outro!!
Antes
de conhecer a pintura de Jocelino fiquei de pé
atrás. Seria o pintor rio-pretense um êmulo,
um diluidor, um papel carbono de José Antonio?
Ao tomar conhecimento, ao ver sua pintura respirei aliviado.
Jocelino não era, não é em nada um
sub-produto do mestre de São José do Rio
Preto.
Em
comum só tem a arte primitiva, a arte ingênua,
São José do Rio Preto. E claro, a pintura.
Não saberia escrever sobre esta pintura sem antes
fazer breve reflexão sobre a pintura primitiva
e ingênua do Brasil. Primeiro, pelo mundo a fora
ser considerado pintor primitivo, ingênuo, naïf
não é desdouro nenhum. Não há
nada de depreciativo na denominação. Segundo,
o artista primitivo, ingênuo é aquele que
se fez por si. Um autodidata. Alguém que desconhece
as rígidas regras criadas pelos irmãos Carracci
na célebre Academia Degli Incamminati de Bolonha,
em 1585. Regras que chegaram até nossos dias através
das academias e escolas de belas artes e de comunicação
artística.
Gente
que nunca ouviu falar de Göethe e de sua teoria da
cor, ou das idéias de Beaudelaire sobre o conceito
de "moderno". Nunca leu nem vai ler Hauser,
Gombrich ou Sgarbi.
De
modo geral, quanto menos sabe da História da Arte,
teorias estéticas, melhor é. Esta observação
se aplica tanto aos primitivos ingênuos do primeiro
mundo, quanto aos do terceiro, quarto, etc.
lsso
foi possível comprovar recentemente na 45ª
Bienal de Veneza, inaugurada em 13 de junho passado. O
grande impacto, não foi super eletrônica
de Nam June Paik. Centenas de televisores, raio laser,
projeções espetaculares falaram menos do
que pinturas singelas do Senegal. Pintura pobre, sem eira
nem beira, com muito de primitiva, ingênua, forte,
expressiva, verdadeira, autêntica. Em suma, visceral
!!!
As
reflexões acima se fazem necessárias em
um momento em que errônea e equivocadamente se pretende
cobrir o sol com a peneira confundindo a pintura primitiva
e ingênua da melhor origem com expressionismo alemão
ou de qualquer outro país. Bobagem gigantesca.
O
expressionismo alemão está para o primitivo,
para o ingênuo assim como o Mirage está para
o Teco-Teco. Ambos voam, porém, a diferença
é enorme. Entretanto, voar em um Teco-Teco pode
ser mais fascinante do que em um Mirage. Questão
de gosto.
E,
nisso tudo, Jocelino como fica? Fica muito bem! Wilhelm
Uhde não hesitaria em inclui-lo entre seus escolhidos.
Uhde, alemão, na primeira década deste século,
foi o primeiro crítico de arte a levar a sério
a pintura primitiva, ingênua. Era um expert. Antes
de Uhde, um poeta, Rimbaud sem dúvida se encantaria
com a pintura de Jocelino.
Por
quê? Simplesmente porque Jocelino não se
enquadra nos padrões estéticos convencionais.
Porque está a anos luz das teorias "ultra-modernas
da vanguarda contemporânea", sobretudo à
distância incomensurável da arte global,
internacional, banal, igual que se produz por esse mundo
de Deus para bienais e documentas.
A
pintura de Jocelino no que tange ao conteúdo reflete
a paisagem que o emociona. Quanto à forma, à
cor, é sutil. Está mais para quarteto de
câmara do que para uma orquestra sinfônica.
Na
pintura de Jocelino, o sussurro conta mais do que o grito.
A
delicadeza predomina. O frescor de suas imagens origina-se
do modo sensível que o artista capta o seu entorno.
Do seu jeito de olhar, de ver, resulta a minúcia
sutil de suas pinceladas. Enquanto Jocelino conservar
a pureza do olhar, sua pintura continuará digna
de ser apreciada. Por gente sem preconceito. Livre. Assim
como Rimbaud".
Carlos
von Schmidt - curador e crítico de arte - 4 de
julho de 1993 - São Paulo, Praça Villaboim,
vendo o grande Ficus.
Extraído
do "Catálogo da Exposição na
Galeria Tok Art", São Paulo
"UM
CAIPIRA À PROCURA DO UNIVERSO"
O
professor Guillermo De La Cruz Coronado é um dos
estudiosos mais atentos da obra de Jocelino Soares. Produziu
nos anos oitenta vários estudos sobre o autor e
sua obra, o principal e mais aprofundado em 1985 com o
título acima (Revista ARTEunesp, número
1, São Paulo, 1985, pág. 1 a 22, disponível
na Biblioteca da Unesp-Rio Preto), enfocando, entre outros
pontos, o drama e a ternura no traço do artista.
"Jocelino
Soares é um artista do desenho que, embora de origem
caipira e com temática preferentemente caipira,
supera as limitações de qualquer tipo de
caipirismo, inventando técnicas novas de configuração
dos objetos e reinventando os fatos mediante perspectivas
inesperadas, sempre à procura de uma visão
profunda do homem", escreve o professor na abertura
do ensaio, do qual, na impossibilidade da publicação
na íntegra, trazemos alguns excertos.
"O
que tem Jocelino de popular e o que tem que transcende
o popular? Tem, em primeiro lugar, a nascença,
a vivência e a integração de seu povo.
Não uma integração por cima, própria
das mentes cultivadas que não abandonaram suas
origens; mas uma integração por dentro,
própria de quem ainda está inserido no corpo
e na alma de seu povo (...) Popular
na
extração e configuração de
cenas, personagens, paisagens e ambientes; porém,
muito além do popular na aura semântica,
no ponto de vista e na realização plástica".
"Jocelino
Soares é um artista cujas obras nos abrem um panorama
rico de expectativas; não expectativas de um principiante,
senão de um incansável explorador da realidade.
Daí a rápida e agitada sucessão de
fases, às vezes contrapostas, no seu trabalho,
mercê das quais o vemos transitar, magicamente,
de um surrealismo mimético e experimental a um
realismo fantástico, ou de uma figuração
fortemente sensual, e nem sempre esteticamente justificada,
a uma simbologia mística, ou, enfim, de um delicadíssimo
bucolismo a um humorismo desconcertante. Não vejo
nesta agitação, aparentemente efêmera,
inconstância ou fracasso; vejo, sim, os tateios
de quem está se fazendo a si mesmo, acumulando
pesquisas e experiências para erigir, aos poucos,
uma visão estética pessoal do universo e
encontrar as formas capazes de significá-la com
originalidade.
"Vista
panoramicamente e deixando de lado diferenciações
de pouca monta dentro de cada uma, distingo, na obra de
Jocelino, realizada até 1984, três fases
de criação, identificáveis como simbologista,
utopista e realista. Na primeira, predonomia o desenho
arredondado e a temática simbolizante, matizadamente
surrealista. Fase de saída à vida pública
da arte, em que a atração pelas correntes
vivas (mais ou menos vivas) é tão forte
e sedutora para os iniciantes(...) Do surrealismo mimético
Jocelino se salva por instinto, ficando nela para sempre
uma tendência simbolista que harmoniza com a sua
mentalidade estética. Há, de fato, uma perspectiva
simbolista em quase toda sua obra. Do mimetismo iniciante
se salva Jocelino por um instinto de impregnação
caipira, um certo substrato de flagrante naturalidade,
tanto nas formas e sua composição espacial
quanto no significado, inserido nas raízes de sua
vida".
"Na
segunda fase, desabrocha o verdadeiro Jocelino, que procura
alimentar-se asceticamente de seus achados e de sua aflorante
criatividade. É a etapa da configuração
dos objetos em madeira, principalmente em forma de ripas,
submetidas a todas as manipulações, para
representar do simples chão ao corpo humano, nas
mais variadas perspectivas, movimentos e expressões.
A configuração dos objetos em madeira é
em Jocelino o avesso do realismo fantástico, constituindo
um utopismo realista (...) pois nesses desenhos se inventa
um espaço ou uma composição de lugar
totalmente fantástico, um espaço fora de
nosso espaço, fora das dimensões e relações
do nosso mundo. Por isso, as figuras e até o próprio
chão estão freqüentemente suspensos
por barbantes ou fios sutis que as erguem no ar, no espaço
absoluto, sem qualquer detalhe referencial, e se perdem,
às vezes, no alto, também absoluto, do quadro".
"(...)
Na sua fase mais recente, volta Jocelino, de corpo e alma,
às suas origens de homem do povo e do campo; volta
ao âmbito de sua infância e adolescência,
ao lugarejo apegado à terra e à lavoura;
volta à sua mais singela e verdadeira realidade.
Daí o retorno ao realismo das formas e dos temas.
Embora a temática popular venha acompanhando o
artista ao longo de todas as fases, nesta última
destaca ainda mais a sagração total às
cenas populares; cada quadro representa um drama de seu
povo, um dos muitos dramas de que está feita sua
memória de menino e adolescente caipira. Nessa
memória não há lugar para folclore
festivo; apenas episódios fúnebres, cenas
pungentes, dramas: atmosfera de coro trágico. A
dor como tonalidade da vida, quase sempre com a presença
da morte. A morte é personagem principal na arte
de Jocelino, assinaladamente nos desenhos desta fase(*)".
Eis
alguns títulos:
A
tarde em que os mortos se foram
Velório
A
viúva triste
Bêbado
trajando luto
O
trem das 9h40 (Um casal suicida sobre os trilhos)
Mais
um (saída de um enterro)
A
noite da minha morte
O
enforcado
Depois
do enterro
Ausência
(cemitério)
A
morte de mim só leva o morto
Não
sinto a vida, mas a morte existe (**)
"Sua
obra é uma galeria de camponeses de todas as idades:
corpos curvados, pés tortos, pernas dobradas; chorando
seus mortos, carregando caixões; sentados no chão,
caminhando na terra batida; braços exaltados pelo
desespero ou encolhidos pela resignação;
velórios, cemitérios, suicídios,
acidentes fatais; crianças com dor adulta ou velhos
de olhos infantis, varados no ministério de seu
viver".
"(...)
As mulheres de Jocelino ostentam amiúde seios despidos
e generosos, agressivos somente no volume, pois carecem
de qualquer conotação sensual. Vaporosos,
compostos de finíssimos traços, irradia-se
sobre rosto, ventre e cabelos, como se todo o corpo da
mulher se resumisse nos belos e delicadíssimos
seios. Mulheres trágicas de seios líricos;
seios maternais, onde a sensualidade é superada
pela singela emoção da mais pura feminilidade.
O balanceio entre o drama e a ternura observa-se ainda
na atuação da paisagem. Mais do que paisagens,
há em Jocelino retalhos de paisagem que adentram
por uma porta ou janela, como avisos de vida nos cenários
de morte (...) pode extrair-se uma verificação
existencial, que parecendo a mais natural não deixa
de ser perturbadora: a vida lá fora é uma
constante, enquanto que a morte, fechada entre quatro
paredes, seria apenas uma variante fugaz, um momento incapaz
de definir o verdadeiro ser do homem".
No
mesmo ano da publicação deste trabalho na
revista ARTEunesp (1985) foi montada a primeira exposição
da fase "colorida" de Jocelino Soares, no Rio
Preto Automóvel Clube, com o sugestivo título:
"Pra não dizer que não usei as cores".
O
Cristal e o Brilho
Com este sugestivo título,
o professor Romildo Sant'Anna analisava em 1985 os trabalhos
das primeiras fases da obra de Jocelino Soares. Romildo
exerceu influência na carreira do pintor. "Em
1974, nos conhecemos na Escola de Arte Juvenil da Casa
da Cultura de Rio Preto. Ele ensinava cinema, mas conversávamos
muito sobre minha pintura. Depois, nos desligamos um tempo
para o reencontro, já em 1979, quando Romildo foi
diretor do Museu Primitivista José Antonio da Silva",
lembra o artista.
Romildo costumava visitar o ateliê
de Jocelino. "O professor fez críticas que
ajudaram na minha carreira. Eu sugava o máximo
que podia em cada conversa".
"O famoso pensador espanhol
Ortega y Gasset disse uma vez que, entre todas as coisas
belas que nos rodeiam, a arte possui uma diferença
fundamental: ela é "vidro e transparência".
Ela é forma aparente e, ao mesmo tempo, forma de
onde transparecem idéias, ações e
sentimentos identificadores da humanidade humana. Exige
técnica, processo de simbolização,
artifício. Estes conceitos relacionam-se ainda
ao de "criar", quer dizer, o ato de revelar
o que já existe no estado potencial do artista
e, por extensão, da natureza humana.
Jocelino Soares veio da roça
há dez anos e, tão logo, começou
uma viva prospecção criativa. Iniciou-se
tentando localizar dentro de si o que havia de mais recôndito
e verdadeiro. Saíram desenhos a lápis de
ponta grossa, retratando formas embrionárias na
acepção mesma da palavra: de ovos pré-históricos,
a genealogia de raízes imitando estranhas formas
animais, deslizando por uma paisagem de águas placentárias.
E, vez por outra, estes seres ancestrais escorregavam
entre postes de luz e rudimentos de paisagens citadinas.
Ao mesmo tempo, o autor ia exercitando o desenho a bico-de-pena
das aparências humanas. Só as cabeças.
Eram formas provenientes de misteriosos
e longínquos túneis, cabeças estas
com um relance aqui e ali de estereótipos que marcaram
épocas. Assim, apareceram também muitas
Marilyn Monroe, rosto altivo, boca entreaberta e tristonhos
olhares infinitos.
Até hoje Jocelino Soares
permanece fiel à assinatura "Celino"
com que se identificava em 75, 1976. Continua na sua busca,
sendo cada resultado um desenho, cada desenho um pedaço
de percurso e, o mais importante, uma chegada. Cada obra
é um trabalho de parto e vem com o frescor revigorante
de lavar-se o rosto de manhãzinha, com sabonete
ainda há pouco saído da embalagem. Tudo
é materialmente insólito, sensorialmente
novo, embora repetindo traços do quadro anteriormente
concebido, como se, aquele, fosse um álibi autobiográfico
a provar sua presença no momento anterior do mesmo
caminho prospectivo.
Assim, surgiram os desenhos de
formas femininas de sua imaginação inimaginada:
os sonhos. Surgiram presas em penedos seculares, os cabelos
ainda molhados, espargindo em ondulações
que vinham a ter pontas mergulhadas no mesmo líquido
placentário de anos antes. À medida em que
se iam libertando das rochas, num esforço que evolui
de quadro para quadro, estas mulheres traziam seios carcomidos
e trincados, tórax com imensos esconderijos, escadarias
e descaminhos, olhos que são vazantes para o interior
do ser. Livres, finalmente, as mulheres (ou a anima arquetípica)
tomaram barcos oníricos, mesclaram-se ao líquido
originário da vida, beberam-no como faz o filho
ao comunicar-se com a mãe no ventre. Por último,
as mulheres confundiram-se com os próprios navios
(a mãe, Jocelino), num despregamento epidérmico
de cascas de madeiras empenadas pelo calor imaginário
do sol.
Concomitantemente, em seu urdido
depoimento surrealista e alembrando-se da vida rural dos
tempos de menino, Jocelino Soares ensaia, na técnica
do crayom, vários retratos de tragédias
campesinas, num derramamento patético de corpos
esquálidos estendidos ao relento, enforcados, defuntos
postergados à beira de charcos e águas estagnadas,
velórios e enterros silenciosos. As cercas farpadas
e obstáculos abissais se fazem sempre presentes
nestas obras, como que a sugerir o desafio de que existe
muito espaço-teoepo a transpor, muito mar a navegar.
Este é o estágio
em que se completam dez anos de um artista leal e coerente
chamado Jocelino Soares. Nele tudo é autêntico
e vivido artisticamente de modo agudo e persistente. Tudo
é vidro e transparência, como dizia o autor
de Meditaciones del Quijote. Tudo são símbolos,
quer os objetos naturais (lago, sol, planta, animais),
quer os objetos fabricados pelo engenho humano (navio,
estandarte, casa, fios de luz), quer as formas abstratas
dos círculos, dos pontos, da geometria de linhas
que se entrelaçam no emaranhado que se expande
de seu mundo interior, materializando-se em finíssimas
linhas de nanquim. Como diz o dramaturgo Edward Albee,
"a gente tem que caminhar muito para atingir um ponto
relativamente próximo".
Desesquecendo as emoções
e vivências que poderiam ser de todos os que contemplam
o labor icônico de seus quadros, esta é já
a longa caminhada de Jocelino Soares, um trajeto que nada
mais tem sido que o de escavar sua própria alma,
para contemplar sua galeria de mistérios. E dizê-lo."
Romildo
Sant'Anna
- (IBILCE/UNESP)*
*Hoje, professor da Universidade de Marília –
UNIMAR
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