Trechos do livro "Jocelino Soares Vida Obra e Crítica"
jornalista Mário Soler Editora RioPretense- 1999.

Teimosia de caboclo

Filho mais velho da união do caboclo Olegário Soares com a neta de italianos Lourdes de Jesus, Jocelino Soares nasceu na fazenda São Miguel, em Neves Paulista, no dia 27 de dezembro de 1955. Viveu sem cidadania até atingir a idade escolar, aos sete anos, quando foi finalmente registrado. O pai lembrava de cor a data, mas confundiu o ano. Jocelino foi registrado como se tivesse nascido em 1956.

Viveu com a família em Neves Paulista por quatro anos.

Mudaram-se para a fazenda São José, dos Haddad, nas vizinhanças da antiga Borboleta, rebatizada Bady Bassitt. A fazenda tem sede até hoje à beira da BR-153 e na época abrangia áreas hoje urbanas - onde estão o Harmonia Tênis Clube, a escola Coopen, o Centro Recreativo do Grupo Verdi, indo até ali por perto do Posto Martinelli e afundando rumo à zona rural. O casal Olegário e Lourdes teve mais seis filhos _ dois homens e quatro mulheres, que o primogênito Jocelino ajudou a sustentar trabalhando na roça.

Jocelino Soares era Celino na roça. Desde criança, se apaixonou por desenhos e letras. Cresceu alternando enxada de dia e lápis nas horas de folga. Entrou aos 22 anos para a Polícia Militar, disposto a garantir o sustento da família _ já era casado em primeiras núpcias e pai - e dedicou-se à arte.

Se aposentou da PM sem ter disparado um só tiro em serviço. Foi sempre soldado raso, orientador de trânsito e professor de projetos comunitários da Polícia Militar de Rio Preto, como o "Projeto Vida", de educação para o trânsito, e o Proerd - Programa Educacional de Resistência às Drogas.

Descoberto pela mídia local e nacional, Jocelino virou o guarda de trânsito que pintava quadros futuristas, e por muito tempo, carregou este rótulo até ser reconhecido como um artista único, maior.

Jocelino Soares viveu uma relação de amor com a terra e de desesperança com a roça. Até hoje, põe nas telas (velhas) paisagens e personagens rurais, como que para eternizar seus tipos e sofrimentos. Este é o lado lúdico, ideológico. A desesperança o perseguiu na infância paupérrima e na adolescência povoada de ambições, que o remetiam sempre ao cenário salvador da cidade. Estudar, progredir, fazer carreira, tudo dependia de deixar o campo. Aos 12 anos, tocou a primeira roça para o próprio sustento, um eito de 1.200 pés de café e mais um alqueire de terra para cultura de subsistência. "Eu fiquei feliz, mas assustado. Ia sozinho para o cafezal distante, morria de medo e cantava para espantar os maus pensamentos", recorda. A irmã de dez anos ajudava na lida depois de ir à escola. Tinha horror às velhas porteiras, testemunhas de tantas idas e vindas. Os moradores mais velhos espalhavam pânico entre a molecada das fazendas, atestando que as porteiras eram assombradas, abriam sozinhas pela ação dos fantasmas.

Disposto a conquistar um lugar na cidade _ "trabalhar na roça, sem perspectivas, era uma rotina estafante", o bóia-fria Jocelino se inscreveu num concurso da Telesp em Rio Preto. Passou na primeira fase e foi chamado pela psicóloga da empresa para uma entrevista. Entrou na melhor roupa e encarou a conversa difícil:

- O que você faz?, perguntou a mulher.

- Trabalho na roça...

- Ah, sim!, e do que você mais gosta fora da roça?

- Gosto de pintar nas horas vagas...

Acabou reprovado. Depois a mulher justificou:

- O serviço aqui é pesado, é preciso subir em poste...

(Não era serviço para artista).

A imagem de "artista" renderia, mais adiante, generosas ironias por parte de alguns colegas de corporação, quando Jocelino já era policial. "Eu era visto como um policial diferente, o peeme-pintor. Na corporação, alguns me tratavam com deboche: ah, não liga não, ele é um artista!, mas a maioria tinha admiração pelo meu trabalho".

Nas ruas, a fama chegaria aos motoristas infratores. Eram comuns apelos assim: "ô, seo guarda, o senhor é um artista, não me multa não!"

E ele devolvia a ironia: "fique tranqüilo, quando pinto não multo."

A veia artística, às vezes, manifestava-se nas horas mais impróprias. Numa tarde modorrenta, Jocelino fiscalizava o trânsito num cruzamento no centro de Rio Preto. O tempo custava a passar e deu vontade de pintar. Uma figura futurista foi concebida ali mesmo, no verso do talão de multas. A relíquia é guardada até hoje junto a um autógrafo do mestre José Antonio da Silva, desenhado na segunda vida de um formulário de multa.

O caipira trêmulo

Reprovado no concurso de postes da Telesp, Jocelino decidiu entrar para a Polícia Militar. Em 1976, fez o exame pela primeira vez. Foi um fiasco. "Ia tudo bem até que me mandaram assinar o nome. Eu não conseguia assinar nada em público, tive uma tremedeira _ sempre tinha - e fui reprovado", conta. Em agosto do mesmo ano, já mais desinibido, fez o concurso pela segunda vez e passou. Virou policial, mas continuou morando no sítio. Logo, foi transferido para São Paulo; um choque. Lá, trabalhou no bairro Santana, Zona Norte da Capital, na viatura que fazia a ronda ostensiva _ "uma barra pesadíssima", recorda. Retornou para Rio Preto em outubro de 78 e foi escalado para policiamento de trânsito. Meses depois, viu de perto a maior rebelião com reféns da história do Cadeião do Eldorado. Precisou subir na torre armado de fuzil, ficando na mira dos presos, que também tinham armas. Foram momentos de tensão e angústia. "No final, os presos se renderam, os oficiais foram condecorados por bravura, mas os soldados rasos não".

A aposentadoria chega e Jocelino encerra a carreira sem disparar um só tiro em serviço. E bem que teve oportunidade, especialmente no dia em que encontrou um homem que se dizia o próprio capeta. Jocelino lembra: "ele parecia feito de elástico, dava saltos mortais ao contrário e ameaçava a todos com uma foice. O homem veio na minha direção, eu tinha a arma na mão, mas me escondi atrás de um poste. Hoje, acho que fiz um bom negócio. Poucos minutos depois conseguimos dominá-lo".

A raiz mais funda

Ao lado de uma das casas da antiga colônia da Fazenda São José, em Rio Preto, há um pé de cedro de uns dez metros de altura. Jocelino se emocionou ao rever a planta numa tarde de outubro de 1999. Vinte e seis anos antes, inspirado na música Pé de Cedro (*), interpretada na época por Tibagi e Miltinho, Jocelino encontrou no mato um pequeno arbusto. Recolheu-o com cuidado para replantar ao lado da casa dos pais. "Quis imitar a música e prometi a mim mesmo que voltaria para lá vinte anos depois. Já se passaram 26 e ainda estou aqui..."

A primeira exposição

Uma tarde, exausto do trabalho, o bóia-fria Celino chegou em casa na fazenda São José, da família Haddad. A mãe Lourdes correu a dar a boa nova.

- Filho, vem ver como a nossa despensa ficou bonita!

Celino encarou a parede recém-branquinha, cheirando a cal fresca, e não pôde crer no que via. Nas paredes, agora alvas, até momentos atrás, estava exposto um pequeno tesouro pessoal, formado por dezenas de desenhos, obras de arte da primeiríssima fase do autor.

Eram desenhos rústicos, em pequenos pedaços de papel que o pai trazia da cidade, feitos com lápis preto de ponta rombuda, muitas vezes com lápis de pedreiro. Os desenhos tinham sido cuidadosamente grudados às paredes, nas quatro pontinhas do retângulo de papel, com uma cola caseira feita de farinha de trigo e água.

Jocelino Soares deduziu em segundos o destino cruel de sua primeira exposição de arte. Outras exposições, aqui e no exterior, viriam para compensar essa primeira perda.

Daquela época, salvou-se uma única obra colorida, a guache, de 1973, (ao lado) sem nome. Mostra o rosto de uma mulher - "provavelmente uma deusa, não sei bem, só sei que copiei o modelo de algum lugar", diz o artista. A obra sobreviveu à reforma da despensa porque foi feita em cartolina grossa e era pesada demais para ser fixada à parede com goma de farinha.

O primeiro impulso

- Ô, nego, continua assim que é aí que tá a coisa!

O jovem artista da roça tomou ao pé da letra as palavras da jornalista e diretora da Casa de Cultura de Rio Preto, Dinorath do Valle, ditas em 1974, durante um curso na Escola de Arte Juvenil.

- Descobri que os desenhos que fazia eram uma forma de arte e não parei mais, recorda Jocelino Soares.

E a produção foi fértil. Em 26 anos de carreira, ele estima que já pintou cerca de mil obras, entre gravuras e quadros.

O primeiro prêmio

A primeira premiação viria em 1976, o terceiro lugar no 17o Salão de Arte Juvenil da Casa da Cultura de Rio Preto, ano que marcou também os primeiros desenhos com bico-de-pena. Foi ainda o ano em que Jocelino viu de perto pela primeira vez um quadro surrealista. "Eram telas de Roni Brandão e Mário Campelo, que me deixaram encantado", lembra. Na véspera dessa descoberta, a ex-patroa da família Soares, a empresária Benny Haddad, inaugurara uma galeria de arte. Jocelino, que nunca pronuncia o nome da empresária, achou que seria convidado para a inauguração. Não foi. No dia seguinte, ao passar em frente ao prédio, entrou para dar de cara com o surrealismo que tanto perseguia.

Jocelino perseguia também imagens que fossem únicas, a marca registrada de sua obra. As imagens instigantes começaram a surgir de um dilema de fim de tarde. "Eram umas quatro horas de um dia de sol quente. Eu trabalhava no cafezal cheio de capim alto e trapoeraba(*). Comecei a imaginar o que eu deveria fazer para mudar meus desenhos e sair daquele mundo. Vieram as figuras que coloquei no papel ao chegar em casa". Nasciam então as figuras espaciais, mulheres com grandes olhos esbugalhados.

"Se eu fizesse uma mulher comum, diz Jocelino, ela seria comum. Então, como chamar a atenção e torná-la especial? Li certa vez que os olhos são o espelho da alma. refletindo sobre isso, aumentei os olhos de minhas mulheres e criei uma marca daquela fase, como são os girassóis a marca da minha fase atual. Qualquer pessoa que olhar uma mulher `zoiúda' vai dizer: ali está uma figura do Jocelino. Com os girassóis de hoje está acontecendo o mesmo. Eu pesquisei e descobri que só Vang Gogh pintou girassóis; eram onze. Todos os quadros do mestre são naturezas mortas. Eu não conheço outro artista que pinte grandes campos de girassóis. Meu girassol é compreendido por qualquer pessoa. Uma criança olha e diz: é um girassol. Eu quero que digam um dia: é um girassol do Jocelino".

Jocelino considera seus bicos-de-penas de 1977 os mais expressivos. "São figuras minhas, que criei, não busquei em lugar algum". Enquanto produzia seus enigmáticos seres e paisagens em preto e branco, Jocelino fazia incursões esporádicas pela cor, mas sem sucesso. Chegou a recorrer a uma técnica de pintura de assopro. Despejava a tinta sobre a superfície do papel e com um canudo assoprava até formar diferentes figuras. "Mas aquele trabalho não tinha nenhuma marca pessoal minha. Fiz alguns cartões de Natal e abandonei a técnica".

Um dia, Jocelino encontrou o professor Guillermo De La Cruz Coronado, um grande incentivador e crítico de sua arte. O professor provocou:

- Jocelino, você precisa usar as cores.

E o artista passou a fazer e em seguida colorir os desenhos. O professor reprovou e insistiu na provocação.

Foi uma fase que Jocelino define como angustiante, um artista em busca de um estilo. Em 81, em plena busca, iniciou a bico-de-pena o auto-retrato, "como faz a maioria dos pintores". Chegou a desenhar os traços fisionômicos, mas parou, convencido de que era narcisismo.

A obra de Jocelino ganharia ainda um lugar (permanente?) nas paredes da Câmara Municipal de Rio Preto. No final de 1984, o então presidente da Câmara, Laerte Teixeira da Costa, pediu ajuda à jornalista Dinorath do Valle para selecionar artistas plásticos `promissores', que ganhariam espaços na parede dos fundos da platéia. Jocelino estava entre os escolhidos e deixou esculpida sua marca registrada - as mulheres sofridas, de grandes olhos. Os painéis foram inaugurados no dia 18 de janeiro de 1985 e as obras ganharam destaque na chamada "Grande Imprensa".

As primeiras cores

Na fase "angustiante", que duraria até 87, Jocelino não interrompeu a busca. O escritor, jornalista e crítico de arte, Roberto do Valle, captou bem esse momento do artista, num texto publicado no "Diário da Região", na série "A arte rio-pretense":

"Jocelino é constante e tenaz em seus bicos-de-pena sensíveis. As belas produções de 1981 mantiveram o tema geral, surrealista (...) esmerada elaboração no tratamento gráfico das figuras, textura convincente, efeito misterioso, sombrio, dramático (...) troncos de mulher com acrescentamentos de símbolos juvenis evidentes, formas espaciais, escadarias, castelos, pontezinhas ou eventualmente figuras mais intrigantes (...) num vocabulário de formas mórbidas, idéia de degenerescência. Nas produções surreais, também é estreito o limite entre uma expressão de profundidade e a mera esquisitice, há sempre um risco de cair nisso. Jocelino não caiu; imagino que imergirá em novas propostas".

Roberto do Valle, jornalista, "Diário da Região", 23.10.83, como que antevendo a incursão de Jocelino pela cor.

"Eu queria sair do fundo do poço, via a luz lá fora mas não conseguia alcançá-la. Na busca pelo domínio da cor, fui aos pintores acadêmicos pedir dicas para usar bem o óleo. Ninguém me ajudava".

Em 3 de janeiro de 1988, Jocelino procurou o pintor rio-pretense Alcides Rozani (falecido em novembro de 97). Rozani recebeu a idéia com prazer e permitiu que Jocelino o visse pintar, misturar as tintas, levá-las à tela. "Ele trabalhava e eu ficava atrás, observando cada detalhe".

A aula começou a dar resultados. A conselho de Rozani, Jocelino adota a técnica do pontilhismo e o primeiro óleo sobre tela surge em 1988: uma mulher leva uma cabaça de água no alto da cabeça, outra escora-se no cabo da enxada, ao fundo a colônia _ reminiscências. O pontilhismo aparece nas obras de Jocelino até o ano de 1990.

"Aí começa a fase da pincelada. Retratei uma família rural sentada à mesa, ouvindo rádio enquanto espera a janta. Gostei de fazer. Logo depois, pintei um retrato de família. E aí a cor não me abandonou mais", lembra o artista. Nos dois quadros, mulheres tomam o lugar da figura paterna; Jocelino não pinta homens, como veremos mais adiante.

Houve em seguida uma fase "vermelha", de 93 a 95. Foram cerca de 30 quadros onde a cor vermelha dominava paisagens e rostos. Um dos principais trabalhos retrata uma mulher chorando junto a outra, prostrada, as duas separadas de um outro grupo feminino por um grande fosso. O vermelho se foi com a aurora dos primeiros girassóis.

Jocelino tipo exportação

Se Jocelino se debatia num dilema interior, em busca de novos rumos para sua arte, a primeira parte de sua obra estava consolidada e recebia comentários favoráveis da crítica (ver adiante o capítulo "A crítica").

Em 1984, inicia uma série "preparação para a morte". Morte, velório, cemitério, enterro, noite. "A morte é a única certeza que temos e a coisa que mais assusta as pessoas. A morte é real, presente, atual", dizia o artista ao "Diário da Região", em 23 de outubro de 1983.

Em março de 1984, veio uma excelente notícia. Conhecedor da obra de Jocelino, o norte-americano radicado em Rio Preto, Thomas Goslee, indicou o artista a Renê Shapshak, diretor cultural do "International Maltese Museum of Fine Arts", de Nova Iorque. Depois de ver alguns trabalhos, Shapshak mandou a Rio Preto a jornalista Ruth Gershon. Durante dez dias ela analisou as obras do artista rio-pretense e selecionou um dos quadros para o acervo permanente do Museu.

Em 7 de março de 1984, Ruth Gershon falou ao jornalista Nivaldo Carrazone, de "A Notícia", sobre suas impressões a respeito da obra de Jocelino Soares:

"Jocelino nos leva a ver uma forma extra-terrestre, que está acima dos nossos sentidos, sem sair contudo de nossa razão científica. A pessoa que está observando a obra de Jocelino chega a perceber o movimento de uma alma em crise. Sua obra mostra o progresso científico da humanidade transportando o homem a um suicídio global. O trabalho de Jocelino é um choro constante suplicando a sanidade do homem. Jocelino é um artista incomparável. Sua estética reflete a arte acima da média e sua expressão mostra a vida diante de um mundo nuclear em destruição, levando-nos a pensar que é hora de mudar e entrar numa vida com esperança".

Ruth Gershon, jornalista e pesquisadora de arte, "A Notícia", pag. 2, 8 de março de 1984.

Ao conhecer em "chef" de cozinha italiano, Jocelino abriu as portas para mostrar seus trabalhos na Europa. Guido Spósito ajudou a organizar uma mostra do artista na cidade de Fondi, em 1994. Foram expostas 20 telas, 14 foram vendidas durante a exposição e o restante depois da volta do artista ao Brasil. Em 1996, expôs 20 quadros em Jacksonville, na Flórida, e dois anos mais tarde voltou à mesma cidade italiana de Fondi para uma segunda exposição.

A mostra na Itália foi um marco na obra de Jocelino. Antes de partir, ainda em 93, ele pintou o primeiro quadro da série "Girassóis". "Eu não sabia como era uma plantação de girassóis. Só fui visitar uma na Itália, depois que tinha pintado o quadro". Na volta ao Brasil, nostálgico, começou a abrir janelas em seus quadros, incluindo no detalhe mais iluminado as paisagens inspiradas na Itália. Há quadros de Jocelino com até quatro janelas. São quadros dentro de um mesmo quadro.

O prazer de pintar

A busca de Jocelino está longe de terminar. Nos últimos anos, o artista vem retratando girassóis e paisagens rurais com plantações de laranja, café e arroz; casas e grandes árvores. Essa recorrência temática resulta da origem rural, um campo ideal que o artista persegue com tenacidade, como se quisesse homenagear o pai que nunca pôde se beneficiar da reforma agrária. Fez em 98 uma série sobre o movimento dos sem-terra e a devastação de Roraima a fogo e motosserra (ver pag66).

No processo de busca, Jocelino se fixou nas cores com que o sol tinge a natureza. Basta comparar os primeiros quadros da série girassóis com as paisagens rurais recém-pintadas para se ter uma idéia de como a luz está cada vez mais presente. "Busco ainda mais luminosidade, até onde o amarelo permitir".

A luz, ele reconhece, depende também da inspiração. "Se o dia está radiante eu me digo: esta luz que eu estou pondo aqui é a do sol nascente; se o dia está triste eu imagino que é um pôr-do-sol". Ele lembra que, nas pinturas em preto e branco, o desafio era tirar a luz da tela branca, para que o preto dominasse a cena. "Ao iniciar nas cores, eu sofri para iluminar minhas telas. Hoje, eu quero que a cor seja cada vez mais real". E cita Picasso: "O mau pintor faz do sol uma mancha amarela; o bom pintor faz da mancha amarela um sol".

Às portas da aposentadoria, com tempo de sobra para a arte, Jocelino já decidiu: esta é a fase de pintar com calma e prazer, "como se eu fosse viver 300 anos". É também a fase da auto-crítica.

"Meu estilo? Não sei. As paisagens não são acadêmicas porque fogem totalmente do academicismo e não são primitivas porque têm muitas nuances de cores, há perspectiva, profundidade. Então, acho que não me encaixo em nenhuma corrente. Parodiando Millôr Fernandes, enfim, um artista sem estilo".

O domínio das mulheres

Todas as figuras criadas por Jocelino são femininas. Pintá-las é uma maneira de homenagear a figura da mulher sofrida, como a roceira, de tripla jornada de trabalho.

"É impressionante como sofre a mulher roceira. Ela acorda antes das seis da manhã e começa a lida; às nove, já lavou roupa e fez almoço. Aí leva o comida pro marido, fica até as quatro ajudando no campo, volta pra dar banho nas crianças, fazer a janta, alimentar os animais. Depois, serve a janta e fica pronta para servir também ao marido, emprenhando uma vez por ano. Com 30 anos, a mulher está acabada, é uma matriz decadente. Minhas personagens são essas mulheres, caboclas sofridas".

Os primeiros passos

Entre a primeira exposiçãozinha particular e a aprovação da crítica, Jocelino Soares percorreu uma longa estrada, sinuosa e difícil como as que ele cruzava a pé e de bicicleta na infância e na juventude. Quando pôs na cabeça que deveria deixar a roça, não poupou meios.

Um rádio de pilha que o pai comprou de segunda mão na Matinha, em 65, era, até então, a única janela para o mundo. Nele, o adolescente Jocelino ouvia as modas de viola na faixa nobre das oito da noite e acabou seduzido duplamente. Primeiro, pela propaganda do Instituto Universal Brasileiro. As promessas do locutor Edgard de Souza, da Rádio Nacional - São Paulo, hoje Rádio Globo, convenceram Jocelino a fazer um curso de pintura por correspondência. Ele pagou para ver, mas desistiu na metade: "aquilo não tinha como dar certo". A segunda sedução foi uma paixão adolescente à distância: "me apaixonei pela voz da Norma Lopes", a segunda locutora do programa. Jocelino sabe de cor até hoje as atrações da faixa nobre da Rádio Nacional: às segundas-feiras, Zé Fortuna e Pitangueira; às terças, Vieira e Vieirinha; às quartas, Liu e Léu; às quintas, Zico e Zeca; às sextas, Tião Carreiro e Pardinho.

O rádio dava menos do que o jovem roceiro precisava. Jocelino descobriu a Biblioteca Municipal de Rio Preto, na esquina das ruas Voluntários de São Paulo e Rubião Junior. Percorria de bicicleta os dezesseis quilômetros, ida e volta, da fazenda às margens da BR-153, saída para Bady Bassitt, até a Biblioteca e trazia sempre um livro para ler à luz da lamparina. Entre os autores preferidos, José Lins do Rego _ "eu me via um menino de engenho" _ e José Mauro de Vasconcelos _ "eu tinha com um pé de pinha a mesma relação que o menino do livro tinha com o pé de laranja lima; descobri que a minha experiência de subir em árvores e estrepar o pé já seduzira também um grande escritor".

O primeiro concurso

Com o tempo, Jocelino foi descobrindo um outro mundo além das fileiras de café. Em 74, passou a freqüentar a Casa da Cultura e se inscreveu no Salão de Arte Juvenil. Apanhou um pedaço de duratex, improvisou uma tela e pintou um Cristo a óleo (ao lado, acima). "Quis fazer um cristo acadêmico, saiu estilizado", lembra. A obra não mereceu a atenção dos jurados.

Em 1975, o artista usou modelos de fotonovelas das revistas Capricho e Grande Hotel para pintar rostos femininos. Nesse ano, ainda, expôs desenhos no Ibilce (Unesp) de Rio Preto, não sem antes viver um apuro. "Os organizadores me pediram um currículo, mas eu não sabia o que era isso. Aí, no dia da mostra, distribuíram um panfleto sobre os trabalhos, onde eu era classificado como surrealista ingênuo. E eu me perguntava, inconformado: mas eu, ingênuo?"

A CRÍTICA

A alma das produções de Jocelino Soares foi perscrutada ao longo dos anos por uma dezena de críticos de arte.

Registramos aqui três momentos da análise - por assim dizer, técnica _ das diferentes fases da pintura do artista rio-pretense.

Neste capítulo, o leitor encontrará textos do curador e crítico de Arte Carlos von Schmidt (1993), sobre a mais nova fase, a "colorida";

do professor Guillermo De La Cruz Coronado (1985) e do professor Romildo Sant'Anna sobre as fases em preto e branco. Acreditamos, assim, contemplar os momentos mais marcantes da obra do artista rio-pretense.

São olhares que ajudam a decifrar o universo de Jocelino.


A HORA E A VEZ DE JOCELINO

"O fato de Jocelino Soares ser de São José do Rio Preto não significa necessariamente que seguiu as pegadas de José Antonio da Silva, o papa dos pintores primitivos e ingênuos do Brasil.

Não! A pintura de um, nada tem a ver com a do outro!!

Antes de conhecer a pintura de Jocelino fiquei de pé atrás. Seria o pintor rio-pretense um êmulo, um diluidor, um papel carbono de José Antonio? Ao tomar conhecimento, ao ver sua pintura respirei aliviado. Jocelino não era, não é em nada um sub-produto do mestre de São José do Rio Preto.

Em comum só tem a arte primitiva, a arte ingênua, São José do Rio Preto. E claro, a pintura. Não saberia escrever sobre esta pintura sem antes fazer breve reflexão sobre a pintura primitiva e ingênua do Brasil. Primeiro, pelo mundo a fora ser considerado pintor primitivo, ingênuo, naïf não é desdouro nenhum. Não há nada de depreciativo na denominação. Segundo, o artista primitivo, ingênuo é aquele que se fez por si. Um autodidata. Alguém que desconhece as rígidas regras criadas pelos irmãos Carracci na célebre Academia Degli Incamminati de Bolonha, em 1585. Regras que chegaram até nossos dias através das academias e escolas de belas artes e de comunicação artística.

Gente que nunca ouviu falar de Göethe e de sua teoria da cor, ou das idéias de Beaudelaire sobre o conceito de "moderno". Nunca leu nem vai ler Hauser, Gombrich ou Sgarbi.

De modo geral, quanto menos sabe da História da Arte, teorias estéticas, melhor é. Esta observação se aplica tanto aos primitivos ingênuos do primeiro mundo, quanto aos do terceiro, quarto, etc.

lsso foi possível comprovar recentemente na 45ª Bienal de Veneza, inaugurada em 13 de junho passado. O grande impacto, não foi super eletrônica de Nam June Paik. Centenas de televisores, raio laser, projeções espetaculares falaram menos do que pinturas singelas do Senegal. Pintura pobre, sem eira nem beira, com muito de primitiva, ingênua, forte, expressiva, verdadeira, autêntica. Em suma, visceral !!!

As reflexões acima se fazem necessárias em um momento em que errônea e equivocadamente se pretende cobrir o sol com a peneira confundindo a pintura primitiva e ingênua da melhor origem com expressionismo alemão ou de qualquer outro país. Bobagem gigantesca.

O expressionismo alemão está para o primitivo, para o ingênuo assim como o Mirage está para o Teco-Teco. Ambos voam, porém, a diferença é enorme. Entretanto, voar em um Teco-Teco pode ser mais fascinante do que em um Mirage. Questão de gosto.

E, nisso tudo, Jocelino como fica? Fica muito bem! Wilhelm Uhde não hesitaria em inclui-lo entre seus escolhidos. Uhde, alemão, na primeira década deste século, foi o primeiro crítico de arte a levar a sério a pintura primitiva, ingênua. Era um expert. Antes de Uhde, um poeta, Rimbaud sem dúvida se encantaria com a pintura de Jocelino.

Por quê? Simplesmente porque Jocelino não se enquadra nos padrões estéticos convencionais. Porque está a anos luz das teorias "ultra-modernas da vanguarda contemporânea", sobretudo à distância incomensurável da arte global, internacional, banal, igual que se produz por esse mundo de Deus para bienais e documentas.

A pintura de Jocelino no que tange ao conteúdo reflete a paisagem que o emociona. Quanto à forma, à cor, é sutil. Está mais para quarteto de câmara do que para uma orquestra sinfônica.

Na pintura de Jocelino, o sussurro conta mais do que o grito.

A delicadeza predomina. O frescor de suas imagens origina-se do modo sensível que o artista capta o seu entorno. Do seu jeito de olhar, de ver, resulta a minúcia sutil de suas pinceladas. Enquanto Jocelino conservar a pureza do olhar, sua pintura continuará digna de ser apreciada. Por gente sem preconceito. Livre. Assim como Rimbaud".

Carlos von Schmidt - curador e crítico de arte - 4 de julho de 1993 - São Paulo, Praça Villaboim, vendo o grande Ficus.

Extraído do "Catálogo da Exposição na Galeria Tok Art", São Paulo

"UM CAIPIRA À PROCURA DO UNIVERSO"

O professor Guillermo De La Cruz Coronado é um dos estudiosos mais atentos da obra de Jocelino Soares. Produziu nos anos oitenta vários estudos sobre o autor e sua obra, o principal e mais aprofundado em 1985 com o título acima (Revista ARTEunesp, número 1, São Paulo, 1985, pág. 1 a 22, disponível na Biblioteca da Unesp-Rio Preto), enfocando, entre outros pontos, o drama e a ternura no traço do artista.

"Jocelino Soares é um artista do desenho que, embora de origem caipira e com temática preferentemente caipira, supera as limitações de qualquer tipo de caipirismo, inventando técnicas novas de configuração dos objetos e reinventando os fatos mediante perspectivas inesperadas, sempre à procura de uma visão profunda do homem", escreve o professor na abertura do ensaio, do qual, na impossibilidade da publicação na íntegra, trazemos alguns excertos.

"O que tem Jocelino de popular e o que tem que transcende o popular? Tem, em primeiro lugar, a nascença, a vivência e a integração de seu povo. Não uma integração por cima, própria das mentes cultivadas que não abandonaram suas origens; mas uma integração por dentro, própria de quem ainda está inserido no corpo e na alma de seu povo (...) Popular

na extração e configuração de cenas, personagens, paisagens e ambientes; porém, muito além do popular na aura semântica, no ponto de vista e na realização plástica".

"Jocelino Soares é um artista cujas obras nos abrem um panorama rico de expectativas; não expectativas de um principiante, senão de um incansável explorador da realidade. Daí a rápida e agitada sucessão de fases, às vezes contrapostas, no seu trabalho, mercê das quais o vemos transitar, magicamente, de um surrealismo mimético e experimental a um realismo fantástico, ou de uma figuração fortemente sensual, e nem sempre esteticamente justificada, a uma simbologia mística, ou, enfim, de um delicadíssimo bucolismo a um humorismo desconcertante. Não vejo nesta agitação, aparentemente efêmera, inconstância ou fracasso; vejo, sim, os tateios de quem está se fazendo a si mesmo, acumulando pesquisas e experiências para erigir, aos poucos, uma visão estética pessoal do universo e encontrar as formas capazes de significá-la com originalidade.

"Vista panoramicamente e deixando de lado diferenciações de pouca monta dentro de cada uma, distingo, na obra de Jocelino, realizada até 1984, três fases de criação, identificáveis como simbologista, utopista e realista. Na primeira, predonomia o desenho arredondado e a temática simbolizante, matizadamente surrealista. Fase de saída à vida pública da arte, em que a atração pelas correntes vivas (mais ou menos vivas) é tão forte e sedutora para os iniciantes(...) Do surrealismo mimético Jocelino se salva por instinto, ficando nela para sempre uma tendência simbolista que harmoniza com a sua mentalidade estética. Há, de fato, uma perspectiva simbolista em quase toda sua obra. Do mimetismo iniciante se salva Jocelino por um instinto de impregnação caipira, um certo substrato de flagrante naturalidade, tanto nas formas e sua composição espacial quanto no significado, inserido nas raízes de sua vida".

"Na segunda fase, desabrocha o verdadeiro Jocelino, que procura alimentar-se asceticamente de seus achados e de sua aflorante criatividade. É a etapa da configuração dos objetos em madeira, principalmente em forma de ripas, submetidas a todas as manipulações, para representar do simples chão ao corpo humano, nas mais variadas perspectivas, movimentos e expressões. A configuração dos objetos em madeira é em Jocelino o avesso do realismo fantástico, constituindo um utopismo realista (...) pois nesses desenhos se inventa um espaço ou uma composição de lugar totalmente fantástico, um espaço fora de nosso espaço, fora das dimensões e relações do nosso mundo. Por isso, as figuras e até o próprio chão estão freqüentemente suspensos por barbantes ou fios sutis que as erguem no ar, no espaço absoluto, sem qualquer detalhe referencial, e se perdem, às vezes, no alto, também absoluto, do quadro".

"(...) Na sua fase mais recente, volta Jocelino, de corpo e alma, às suas origens de homem do povo e do campo; volta ao âmbito de sua infância e adolescência, ao lugarejo apegado à terra e à lavoura; volta à sua mais singela e verdadeira realidade. Daí o retorno ao realismo das formas e dos temas. Embora a temática popular venha acompanhando o artista ao longo de todas as fases, nesta última destaca ainda mais a sagração total às cenas populares; cada quadro representa um drama de seu povo, um dos muitos dramas de que está feita sua memória de menino e adolescente caipira. Nessa memória não há lugar para folclore festivo; apenas episódios fúnebres, cenas pungentes, dramas: atmosfera de coro trágico. A dor como tonalidade da vida, quase sempre com a presença da morte. A morte é personagem principal na arte de Jocelino, assinaladamente nos desenhos desta fase(*)".

Eis alguns títulos:

A tarde em que os mortos se foram

Velório

A viúva triste

Bêbado trajando luto

O trem das 9h40 (Um casal suicida sobre os trilhos)

Mais um (saída de um enterro)

A noite da minha morte

O enforcado

Depois do enterro

Ausência (cemitério)

A morte de mim só leva o morto

Não sinto a vida, mas a morte existe (**)

"Sua obra é uma galeria de camponeses de todas as idades: corpos curvados, pés tortos, pernas dobradas; chorando seus mortos, carregando caixões; sentados no chão, caminhando na terra batida; braços exaltados pelo desespero ou encolhidos pela resignação; velórios, cemitérios, suicídios, acidentes fatais; crianças com dor adulta ou velhos de olhos infantis, varados no ministério de seu viver".

"(...) As mulheres de Jocelino ostentam amiúde seios despidos e generosos, agressivos somente no volume, pois carecem de qualquer conotação sensual. Vaporosos, compostos de finíssimos traços, irradia-se sobre rosto, ventre e cabelos, como se todo o corpo da mulher se resumisse nos belos e delicadíssimos seios. Mulheres trágicas de seios líricos; seios maternais, onde a sensualidade é superada pela singela emoção da mais pura feminilidade. O balanceio entre o drama e a ternura observa-se ainda na atuação da paisagem. Mais do que paisagens, há em Jocelino retalhos de paisagem que adentram por uma porta ou janela, como avisos de vida nos cenários de morte (...) pode extrair-se uma verificação existencial, que parecendo a mais natural não deixa de ser perturbadora: a vida lá fora é uma constante, enquanto que a morte, fechada entre quatro paredes, seria apenas uma variante fugaz, um momento incapaz de definir o verdadeiro ser do homem".

No mesmo ano da publicação deste trabalho na revista ARTEunesp (1985) foi montada a primeira exposição da fase "colorida" de Jocelino Soares, no Rio Preto Automóvel Clube, com o sugestivo título: "Pra não dizer que não usei as cores".


O Cristal e o Brilho

Com este sugestivo título, o professor Romildo Sant'Anna analisava em 1985 os trabalhos das primeiras fases da obra de Jocelino Soares. Romildo exerceu influência na carreira do pintor. "Em 1974, nos conhecemos na Escola de Arte Juvenil da Casa da Cultura de Rio Preto. Ele ensinava cinema, mas conversávamos muito sobre minha pintura. Depois, nos desligamos um tempo para o reencontro, já em 1979, quando Romildo foi diretor do Museu Primitivista José Antonio da Silva", lembra o artista.

Romildo costumava visitar o ateliê de Jocelino. "O professor fez críticas que ajudaram na minha carreira. Eu sugava o máximo que podia em cada conversa".

Eis a íntegra do artigo:

"O famoso pensador espanhol Ortega y Gasset disse uma vez que, entre todas as coisas belas que nos rodeiam, a arte possui uma diferença fundamental: ela é "vidro e transparência". Ela é forma aparente e, ao mesmo tempo, forma de onde transparecem idéias, ações e sentimentos identificadores da humanidade humana. Exige técnica, processo de simbolização, artifício. Estes conceitos relacionam-se ainda ao de "criar", quer dizer, o ato de revelar o que já existe no estado potencial do artista e, por extensão, da natureza humana.

Jocelino Soares veio da roça há dez anos e, tão logo, começou uma viva prospecção criativa. Iniciou-se tentando localizar dentro de si o que havia de mais recôndito e verdadeiro. Saíram desenhos a lápis de ponta grossa, retratando formas embrionárias na acepção mesma da palavra: de ovos pré-históricos, a genealogia de raízes imitando estranhas formas animais, deslizando por uma paisagem de águas placentárias. E, vez por outra, estes seres ancestrais escorregavam entre postes de luz e rudimentos de paisagens citadinas. Ao mesmo tempo, o autor ia exercitando o desenho a bico-de-pena das aparências humanas. Só as cabeças.

Eram formas provenientes de misteriosos e longínquos túneis, cabeças estas com um relance aqui e ali de estereótipos que marcaram épocas. Assim, apareceram também muitas Marilyn Monroe, rosto altivo, boca entreaberta e tristonhos olhares infinitos.

Até hoje Jocelino Soares permanece fiel à assinatura "Celino" com que se identificava em 75, 1976. Continua na sua busca, sendo cada resultado um desenho, cada desenho um pedaço de percurso e, o mais importante, uma chegada. Cada obra é um trabalho de parto e vem com o frescor revigorante de lavar-se o rosto de manhãzinha, com sabonete ainda há pouco saído da embalagem. Tudo é materialmente insólito, sensorialmente novo, embora repetindo traços do quadro anteriormente concebido, como se, aquele, fosse um álibi autobiográfico a provar sua presença no momento anterior do mesmo caminho prospectivo.

Assim, surgiram os desenhos de formas femininas de sua imaginação inimaginada: os sonhos. Surgiram presas em penedos seculares, os cabelos ainda molhados, espargindo em ondulações que vinham a ter pontas mergulhadas no mesmo líquido placentário de anos antes. À medida em que se iam libertando das rochas, num esforço que evolui de quadro para quadro, estas mulheres traziam seios carcomidos e trincados, tórax com imensos esconderijos, escadarias e descaminhos, olhos que são vazantes para o interior do ser. Livres, finalmente, as mulheres (ou a anima arquetípica) tomaram barcos oníricos, mesclaram-se ao líquido originário da vida, beberam-no como faz o filho ao comunicar-se com a mãe no ventre. Por último, as mulheres confundiram-se com os próprios navios (a mãe, Jocelino), num despregamento epidérmico de cascas de madeiras empenadas pelo calor imaginário do sol.

Concomitantemente, em seu urdido depoimento surrealista e alembrando-se da vida rural dos tempos de menino, Jocelino Soares ensaia, na técnica do crayom, vários retratos de tragédias campesinas, num derramamento patético de corpos esquálidos estendidos ao relento, enforcados, defuntos postergados à beira de charcos e águas estagnadas, velórios e enterros silenciosos. As cercas farpadas e obstáculos abissais se fazem sempre presentes nestas obras, como que a sugerir o desafio de que existe muito espaço-teoepo a transpor, muito mar a navegar.

Este é o estágio em que se completam dez anos de um artista leal e coerente chamado Jocelino Soares. Nele tudo é autêntico e vivido artisticamente de modo agudo e persistente. Tudo é vidro e transparência, como dizia o autor de Meditaciones del Quijote. Tudo são símbolos, quer os objetos naturais (lago, sol, planta, animais), quer os objetos fabricados pelo engenho humano (navio, estandarte, casa, fios de luz), quer as formas abstratas dos círculos, dos pontos, da geometria de linhas que se entrelaçam no emaranhado que se expande de seu mundo interior, materializando-se em finíssimas linhas de nanquim. Como diz o dramaturgo Edward Albee, "a gente tem que caminhar muito para atingir um ponto relativamente próximo".

Desesquecendo as emoções e vivências que poderiam ser de todos os que contemplam o labor icônico de seus quadros, esta é já a longa caminhada de Jocelino Soares, um trajeto que nada mais tem sido que o de escavar sua própria alma, para contemplar sua galeria de mistérios. E dizê-lo."

Romildo Sant'Anna - (IBILCE/UNESP)*
*Hoje, professor da Universidade de Marília – UNIMAR